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25 Mai 2011

PROTESTO E PROPOSTA: O futuro do Mercado do Bom Sucesso

Posted by acdporto

É preciso que tudo mude, para que tudo possa ficar como está, já dizia Lampedusa (primeiro) e mais umas dezenas de comentadores (depois), a respeito de tudo e de nada. Esta constatação aplica-se bastante bem à discussão sobre o mercado do Bom Sucesso, assim como à maioria dos espaços da cidade onde a falta de imaginação e a lei do menor esforço se aliam para definir as soluções menos interessantes e mais conformistas para a sua regeneração.

Ninguém duvida que um mercado de frescos tradicional deixou de ser um tradicional mercado de frescos. E que a “população” tem mais sítios onde ir, uns melhores, outros mais baratos, outros mais funcionais. Isto é assim em qualquer parte do mundo; só que a população não é uma entidade homogénea, e os estudos ou intuições sobre “o que as pessoas querem” não têm muito valor numa socidade complexa e variada. Por isso, nem colhe o argumento de que o “mercado tradicional” deixou de fazer sentido numa sociedade moderna e automobilizada, nem o de que há que lutar contra as cedências “ao capital” contra o serviço público da população. O primeiro faz de conta que só existe um tipo de pessoas e de hábitos, o segundo finge que a ideologia e a classe social influenciam a nossa compra de frutas e legumes.

O problema é outro, e tem a ver com as funções PARALELAS presentes na cidade, que servem ricos, pobres e remediados, turistas, residentes e city-users. Tal como a existência de analfabetos não invalida a necessidade de ter universidades, é a questão pragmática da diversidade, da acumulação, e até de alguma “redundância necessária” que importa discutir. Para além, claro, da questão patrimonial, amplamente defendida por arquitectos e outros profissionais preocupados com o modo como uma proposta formal excessivamente afirmativa desvirtua em absoluto as características essenciais do mercado. E não, a “fachada” não é o mais importante. Aliás, o fachadismo teve o seu tempo: é preferível pintar a fachada do mercado de rosa-choque e manter aquele espaço interior iluminado e íntegro, a usar o velho truque da “caixa dentro da caixa” para atafulhar o mercado de volumetrias insólitas.

Finalmente, a ideia de que o acesso aos escritórios e serviços “obriga” as pessoas a passar necessariamente pelas poucas bancadas que restarem enferma de uma visão de mercado-jardim-zoológico (para subir ao mezzanine e espreitar o ‘exótico’) que vale tanto como dizer que a indústria têxtil do Porto está viva nas maquinetas do NorteShopping.

Por tudo isto, há que passar do protesto à proposta, e aprender com cidades que já regeneraram os seus mercados e fizeram deles fontes de diversidade social, oferta comercial paralela, rentabilidade e turismo. Ficam algumas sugestões:

  1. Modernizar a oferta dos mercados da cidade através de ‘especializações’ paralelas e variáveis: produtos gourmet, mas também frutas frescas, happy hours de sumos naturais, produção biológica, gastronomia de outros continentes e culturas, etc.
  2. Em função da localização, apontar a divulgação e a oferta ora para residentes, ora para turistas, ora para city-users. Os mercados não servem todos o mesmo público (e o ‘povo’ não está sentado à espera para lá ir).
  3. Funcionamento em rede: criar uma rede ‘oficial’ de mercados da cidade, a partilhar recursos, eventos e públicos, tornando eficaz a gestão e transmitindo uma ideia de dimensão e massa crítica, que pode até ser exagerada, mas é útil.
  4. Em horários alargados e versáteis, levar todo o tipo de eventos aos mercados. Numa cidade que passa o tempo a organizar eventos, feiras e congressos ligados à gastronomia e vinhos, porque não aproveitar a Essência do Vinho, o Porto.come, a Rota do Gosto, os congressos internacionais de gastronomia, as dezenas de workshops, provas de vinhos, apresentações de escolas de hotelaria e de restaurantes, etc.? Tudo isto podia ser realizado na rede de mercados do Porto, de forma rotativa. Basicamente, centralizar tudo o que tenha a ver com gastronomia e vinho, um dos pontos fortes da cidade, como forma de actualizar as funções dos mercados, com consequências óbvias na atitude (e na renovação geracional) dos vendedores, nos horários de funcionamento, no tipo e diversidade de públicos e na rentabilidade.
  5. Finalmente, integrar estes espaços nas redes europeias e mundiais de mercados de frescos (que existem) e com isso partilhar produtos, divulgação, programas educativos, etc.

Ou seja, trata-se de assumir a diversidade, compreender os novos tempos, aprender com quem já passou pelos mesmos desafios, não transformar tudo em batalhas ideológicas e, principalmente, usar a imaginação para perceber que os hábitos das pessoas não são tão regulares como as estatísticas mostram e que a cidade ‘social’ muda muito mais depressa do que a sua correspondente ‘física’.

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3 Responses to “PROTESTO E PROPOSTA: O futuro do Mercado do Bom Sucesso”

  1. [...] Na Associação de Cidadãos do Porto. [...]

     
  2. Bla…Bla…Bla… acdporto ?
    Associação de cidadãos do Porto?
    Que cidadão do Porto quer que um mercado como o do Bom Sucesso seja demolido e no seu logar contruido um resot para ricos ou endividados? esta é a geração Bla Bla, fala fala e não se tira grande coisa, com palavras retiradas dos mais refinados romances Camilianos, mas sem conteúo. por favor, estamos fartos de Bla Bla a entreter o povo. Em todos os países da europa os mercados de rua estão em voga, são o exlibis de qualquer cidade, desde a Alemanha até Inglaterra, onde ainda se vende na rua o peixe frito embrulhado em papel. Aqui neste pais até as castanhas têm que ser assadas em assadores de inox e embrulhadas em papel proprio, pois a folha da lista telefónica não está na norma do lesgislador Bla Bla.

     

    Vítor Marques

  3. Caro amigo,

    De certeza que leu o nosso texto (mesmo muito) na diagonal. A ACdP é defensora do mercado de frescos tradicional e absolutamente contra o projecto que nos querem impor.
    Somos inclusivamente um dos subscritores do manifesto da plataforma “Bom Sucesso Vivo”.

    Um abraço,

    Miguel Barbot

     

    acdporto

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